As Primeiras Evidências Do Uso De Dados Para Seguro Agrícola Já Aparecem no Brasil

 

Em diferentes países, dados produzidos durante o ciclo agrícola começam a fazer parte da infraestrutura de decisão do seguro rural. No Brasil, essa transformação
ainda convive com desafios institucionais, orçamentários e jurídicos.  A distância entre esses modelos é uma janela, não uma sentença.

Este artigo representa a interpretação do autor sobre movimentos recentes do mercado de seguro rural e infraestrutura de risco, baseada em fontes públicas. Algumas conclusões refletem análises próprias e não posições oficiais das organizações citadas.

Um gestor de subscrição numa seguradora com carteira agro tem duas formas de responder à mesma pergunta: “quanto risco esse talhão carrega?” Uma resposta parte das informações declaradas pelo produtor e da documentação tradicional utilizada na contratação. A outra vem do próprio talhão — imagem de satélite, sensores, histórico de manejo e outros dados produzidos durante o ciclo agrícola. Nos Estados Unidos, essa segunda resposta vem ganhando reconhecimento formal em parte da documentação oficial.

No Brasil, o modelo predominante ainda depende muito mais da primeira. É esse contraste que quero destrinchar — não como notícia solta, mas como mudança estrutural no critério que decide quem recebe cobertura, e por quanto.

O que mudou no programa federal americano

Nos Estados Unidos, a Risk Management Agency (RMA), agência do USDA responsável pela administração do programa federal de seguro agrícola, já aceita dados de agricultura de precisão como parte da documentação exigida para determinados produtos.

Um exemplo é o PACE (Post-Application Coverage Endorsement), um endosso voltado a produtores de milho que realizam aplicações de nitrogênio em diferentes momentos do ciclo da cultura.

Segundo o FAQ oficial da RMA, dados de agricultura de precisão estão entre os registros aceitos para comprovar a aplicação prévia de nitrogênio e a intenção de realizar a aplicação posterior. Isso amplia o conjunto de evidências reconhecidas pelo programa. Além de recibos de compra e planos de produção, o produtor pode apresentar registros digitais gerados durante a própria operação agrícola.

Para determinados produtos do programa federal americano, o dado de agricultura de precisão deixa de ser apenas uma ferramenta de gestão da fazenda e passa a integrar a documentação oficialmente aceita.

Esse movimento não elimina os modelos tradicionais de comprovação. Ele amplia o conjunto de evidências disponíveis para compreender e documentar o risco.

Embora este artigo tenha como foco o reconhecimento institucional dos dados, observa-se também um movimento crescente de incorporação de agricultura de precisão, imagens de satélite e outras tecnologias pelas seguradoras ao longo do ciclo do seguro, da subscrição à regulação de sinistros. Na Índia, o movimento é diferente. O programa nacional de seguro agrícola (PMFBY) utiliza sensoriamento remoto — por meio da iniciativa YES-TECH — para apoiar estimativas de produtividade e processos de avaliação de perdas dentro da própria política pública.

O México seguiu outro caminho. Em determinados programas agrícolas, modelos paramétricos apoiados por imagens de satélite e índices de vegetação já vêm sendo utilizados para determinadas coberturas, demonstrando outra forma de incorporar dados ao seguro rural.

Estados Unidos, Índia e México não estão construindo exatamente o mesmo modelo. O ponto em comum é outro: todos ampliam, de alguma forma, o papel do dado produzido durante o ciclo produtivo na avaliação e na gestão do risco.

Por que “aceitar” é diferente de “usar”

Vale parar num ponto, porque é o que mais separa o movimento americano de uma simples modernização tecnológica: existe uma diferença grande entre uma empresa usar uma tecnologia e a autoridade responsável pela administração do programa federal de seguro agrícola reconhecer esse tipo de informação.

Uma seguradora pode adotar sensor, satélite ou drone há anos, por conta própria, para agilizar seu processo interno. Isso melhora a operação dela — mas continua sendo escolha isolada, com o regulador ainda exigindo o documento tradicional por trás. O EARP e o endosso PACE fazem algo diferente: o próprio órgão que define as regras do jogo passa a aceitar esse dado como prova válida, para determinados produtos. Isso não melhora só uma empresa. Isso tende a mudar, ao longo do tempo, as expectativas sobre a documentação necessária para operar nesse mercado.

É essa diferença que explica por que o efeito tende a se espalhar pelo mercado inteiro, e não ficar restrito a quem já investia em tecnologia. Quando o regulador reconhece um tipo de dado como documento válido, ele deixa de ser vantagem de quem chegou na frente — vira, aos poucos, expectativa comum sobre o que qualquer seguradora deveria conseguir mostrar.

O que acontece quando a cobertura ainda depende de orçamento

No Brasil, a cobertura do seguro rural continua fortemente influenciada pela política de subvenção ao prêmio, realizada por meio do Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR). Embora a análise de risco e a subscrição sejam realizadas pelas seguradoras, a disponibilidade de recursos públicos para subsidiar parte do prêmio influencia diretamente o alcance do mercado.

O ambiente institucional brasileiro também é mais distribuído do que o americano. A aprovação dos produtos passa pela SUSEP, responsável pela supervisão do mercado segurador. Já os produtos que
pretendem operar com subvenção do PSR precisam atender também aos critérios estabelecidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). Na prática, isso significa que a evolução do seguro rural depende não apenas da inovação das seguradoras, mas também do alinhamento entre diferentes instâncias da política pública.

Essa distinção é importante. Produtos desenvolvidos fora do ambiente da subvenção tendem a oferecer maior liberdade para experimentação de novos modelos de cobertura. Já aqueles que pretendem acessar recursos do PSR precisam, além da aprovação regulatória, atender às regras específicas do programa.

Quando a verba destinada ao PSR diminui, reduz-se a capacidade de subsidiar novas apólices, mesmo que o risco produtivo permaneça o mesmo. O orçamento define o alcance da política pública de incentivo ao seguro rural, não necessariamente a qualidade da subscrição realizada pelas seguradoras.
Foi esse o cenário retratado pelo Canal Rural em 28 de julho de 2026, ao mostrar que a restrição no PSR reduziu a cobertura do seguro rural já na safra 2026/27.

Duas semanas antes, em 15 de julho, o Senado havia aprovado o regime de urgência para o novo marco legal do seguro rural — iniciativa que busca reorganizar o ambiente institucional do setor. As duas agendas caminham em paralelo: de um lado, a discussão sobre o futuro do marco regulatório; de outro, a limitação orçamentária da principal política pública de incentivo ao seguro rural.

O reflexo aparece também nos números. A CNseg projetou, em reportagem do Canal Rural de 2 de maio de 2026, uma queda de 3,9% na arrecadação do seguro rural em 2026, depois de um recuo de 8,8% em 2025. A área segurada acompanha essa retração. Isso não significa que o risco agrícola tenha diminuído. Significa que a capacidade de transformar esse risco em cobertura continua fortemente condicionada ao orçamento disponível para a política pública de subvenção.

Um desafio adicional: previsibilidade jurídica

Mesmo que o mercado brasileiro avance para modelos cada vez mais baseados em dados, existe outro desafio que costuma receber menos atenção: a previsibilidade na aplicação dos critérios contratuais. Em seguros baseados em índices ou parâmetros previamente definidos, a confiança no modelo depende de um princípio simples: os critérios utilizados para avaliação, contratação e liquidação, em geral, precisam permanecer os mesmos durante toda a vigência do contrato.

Isso não significa que contratos não possam ser discutidos quando houver dúvidas sobre informação, transparência ou execução das cláusulas. Esses mecanismos fazem parte de qualquer mercado maduro. O desafio surge quando a discussão passa a questionar o próprio critério técnico que sustentou a avaliação e a contratação do risco. À medida que o mercado incorpora novos modelos baseados em dados, a previsibilidade na aplicação desses critérios tende a se tornar um elemento tão importante quanto a própria qualidade da informação.

Minha leitura: quando o dado vira infraestrutura de decisão

Minha interpretação é que o ponto central não é que os Estados Unidos, a Índia ou o México estejam “na frente” do Brasil. O movimento mais relevante é outro: em diferentes contextos, o dado produzido durante o ciclo agrícola começa a deixar de ser apenas uma evidência utilizada para comprovar um evento e passa a integrar a própria forma como o seguro rural avalia o risco. Essa transformação acontece por caminhos diferentes. Em alguns casos, por meio do reconhecimento de novas formas de documentação em programas públicos.

Em outros, pela incorporação de sensoriamento remoto, seguros paramétricos ou novos modelos de cobertura.

O seguro agrícola também vive uma evolução dos próprios produtos. O modelo tradicional, baseado em produtividade histórica e regulação presencial de sinistros, passa a conviver com seguros paramétricos, iniciativas de picture-based insurance e modelos híbridos que combinam diferentes fontes de informação, como imagens de satélite, dados agronômicos, histórico produtivo e monitoramento contínuo da lavoura.

Cada abordagem busca resolver desafios diferentes. O ponto em comum é outro: o dado deixa de servir apenas para documentar um evento e passa a participar da própria construção da decisão de risco.
É por isso que considero essa mudança maior do que a adoção de uma tecnologia específica. Quando programas públicos, seguradoras e novos modelos de seguro passam a reconhecer essas informações como parte do processo de avaliação do risco, o dado deixa de ser apenas um diferencial tecnológico e começa a ocupar um papel estrutural na forma como o mercado compreende, avalia e administra esse risco.

Isso importa para quem subscreve risco agro no Brasil. Resseguro e capital internacional, em geral, não são recursos isolados por país. É razoável imaginar que, à medida que mais mercados passem a incorporar dados agronômicos aos seus processos, a qualidade dessas informações também influencie, cada vez mais, a percepção de risco sobre diferentes carteiras.

Vale marcar uma diferença importante. Agricultura de precisão, sensoriamento remoto, seguros paramétricos e modelos híbridos não são a mesma coisa. Cada abordagem resolve problemas distintos e possui características próprias. Ainda assim, todas caminham na mesma direção: ampliar o uso de informações objetivas produzidas durante o ciclo agrícola para apoiar decisões de risco.

O Brasil já apresenta sinais consistentes dessa evolução. Em novembro de 2025, a Aon anunciou a primeira apólice de seguro paramétrico florestal do país, baseada em índices objetivos para acionamento da cobertura. Em maio de 2026, a FGV Agro propôs utilizar os níveis de manejo do ZARC como uma referência comum para seguro rural, crédito e Proagro. São iniciativas de naturezas diferentes — uma comercial e outra técnica —, mas ambas apontam para o mesmo movimento:

transformar o dado agronômico em uma referência compartilhada entre quem financia, quem segura e quem produz.

As quatro perguntas que separam dado de talhão de orçamento

Para quem subscreve seguro ou crédito agro, a pergunta prática não é “o Brasil vai copiar o EARP” — decisão de política pública, fora do meu território. A pergunta que cabe a cada operação é outra: hoje, o critério que eu uso é dado ou é orçamento? Estas quatro perguntas ajudam a ler a própria operação:

  1. A origem do dado.
    O que sustenta minha subscrição hoje: o que o produtor declarou, ou o que o talhão mostra?
  2.  A atualização do dado.
    Esse dado é fotografado uma vez, no início do contrato, ou é atualizado ao longo da safra?
  3.  A dependência de verba.
    Se a subvenção ou o orçamento disponível mudar amanhã, meu critério de risco muda junto —
    ou ele é independente disso?
  4.  A explicabilidade da decisão.
    Quando aprovo ou recuso uma cobertura, consigo mostrar o dado que sustentou essa leitura
    — ou só registro o resultado?

 

Essas perguntas mudam a forma de ler o risco. Elas não dizem quanto cobrar, que limite aprovar ou que política adotar — isso é decisão de cada seguradora, banco ou cooperativa, e cabe só a quem está na operação.

Onde a infraestrutura entra

Ler risco contrato por contrato funciona numa carteira pequena. Numa carteira com milhares de operações, essa leitura para de escalar: um analista examina um produtor por vez, mas o volume de
contrato, de safra e de dado de pagamento cresce mais rápido do que a capacidade de qualquer time olhar caso a caso. É aí que a leitura manual deixa de sustentar a operação — não por falta de
dado, mas por falta de um motor que processe esse volume e devolva uma leitura auditável, explicável, rastreável até a origem.

É esse motor que construímos na Celeiro: infraestrutura de risco de crédito e seguros no agro, via plataforma ou API, que transforma contrato, safra e dado do produtor em sinal de risco e visão de
capacidade de pagamento. O mesmo dado que sustenta uma apólice pode sustentar um limite de crédito — mesma base de informação, não dois módulos separados. Em uma implementação da
Celeiro na Sombrero Seguradora, a automação e a consolidação das consultas reduziram em 77% o custo operacional do processo analisado. O que a seguradora ou o banco decide fazer com o sinal —
cobertura, limite — continua sendo escolha de quem está na operação.

O que eu vou continuar acompanhando

A regulamentação do novo marco do seguro rural será um dos principais indicadores da direção que o Brasil pretende seguir. Mais do que acompanhar mudanças legais, será importante observar como
elas influenciam a capacidade do mercado de incorporar novos modelos de avaliação e gestão do risco.

Também vale acompanhar a evolução de iniciativas como a proposta da FGV Agro para utilização dos níveis de manejo do ZARC como referência comum para seguro, crédito e Proagro.  Se ganhar tração, ela poderá aproximar diferentes instrumentos financeiros de uma mesma base de informação. Outro aspecto relevante será a evolução dos próprios produtos. O seguro rural tradicional tende a conviver, cada vez mais, com seguros paramétricos, modelos apoiados por sensoriamento remoto, iniciativas de picture-based  insurance e outras soluções baseadas em dados. Não necessariamente um substituirá o outro. O mais provável é que coexistam, atendendo diferentes perfis de risco e necessidades do mercado.  Durante décadas, a principal discussão do seguro rural esteve concentrada em como financiar o risco agrícola.

Talvez a próxima década seja marcada por outra pergunta: como medir esse risco de forma cada vez mais precisa. 

Em diferentes países, esse movimento segue caminhos distintos.  Alguns incorporam agricultura de precisão à documentação aceita por programas públicos. Outros utilizam sensoriamento remoto, seguros paramétricos ou novos modelos de cobertura. O ponto comum é outro: o dado deixa de ser apenas registro operacional e passa a sustentar as decisões de crédito, seguro e, cada vez mais, outras formas de financiamento do agro. Quem trabalha com seguro, crédito ou gestão de risco no agro: continuo acompanhando esse movimento nos posts e na newsletter da Celeiro. Fico curioso para ouvir qual desses movimentos vocês acreditam que ganhará escala primeiro no Brasil.

Emerson Coelho
Co-founder, Celeiro Análise de Risco

 

Referências

Estados Unidos

  • USDA (05/12/2025) — USDA Expands Crop Insurance Access for Farmers and Ranchers, Boosting Farm
    Safety Net. Anúncio da regra EARP para o programa federal de seguro agrícola. usda.gov
  • USDA / Risk Management Agency (RMA) — Post-Application Coverage Endorsement (PACE) FAQ oficial
    sobre a aceitação de dados de agricultura de precisão. rma.usda.gov
  • Índia
  • Department of Agriculture & Farmers Welfare (Government of India) — YES-TECH Manual 2023, sistema
    de estimativa de produtividade utilizado no PMFBY. pmfby.gov.in
  • México
  • Gobierno de México / Secretaría de Agricultura — Aseguramiento agropecuario: tipos y cobertura.
    gob.mx
  • AGROASEMEX — Seguro Agrícola Catastrófico Paramétrico. gob.mx
  • AGROASEMEX — Seguro de Daños a la Apicultura con Imágenes de Satélite. gob.mx
  • Brasil
  • SUSEP — competências institucionais da Superintendência de Seguros Privados.
  • Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) — Programa de Subvenção ao Seguro Rural (PSR).
  • Canal Rural (15/07/2026) — urgência do novo marco do seguro rural aprovada no Senado.
    canalrural.com.br
  • Canal Rural (28/07/2026) — restrição no PSR reduz cobertura do seguro rural na safra 2026/2027.
    canalrural.com.br
  • Canal Rural (02/05/2026) — CNseg projeta queda de 3,9% na arrecadação do seguro rural em 2026,
    após recuo de 8,8% em 2025. canalrural.com.br
  • Seguro Rural Brasil (13/11/2025) — Aon fecha a primeira apólice de seguro paramétrico florestal do
    Brasil. seguroruralbrasil.com.br
  • Seguro Rural Brasil (20/05/2026) — FGV Agro propõe integração entre seguro rural, crédito e
    Proagro com os níveis de manejo do ZARC. seguroruralbrasil.com.br
  • Caso prático citado
  • Celeiro / Sombrero Seguradora — implementação de infraestrutura de análise de risco com redução de
    77% do custo operacional do processo (informação fornecida pela Celeiro).
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