Estratégia & Tecnologia

Todo mundo vai ter IA.Quase ninguém vai ter vantagem.

 

Uma dúvida que não me largou mais: se todos ganharem a mesma capacidade, onde fica a diferenciação?

Em julho de 2025, o Project NANDA, do MIT Media Lab, publicou um relatório chamado The GenAI Divide: State of AI in Business 2025. Entre US$ 30 e 40 bilhões investidos por empresas em IA generativa, e o achado que virou manchete: cerca de 95% das iniciativas não produziram nenhum retorno mensurável no resultado. Só 5% chegaram a impacto real.

O número é preliminar, a amostra é pequena e a metodologia foi contestada — não é nele que eu me apoio. O que me interessa é o diagnóstico dos autores sobre a causa. Eles não apontam qualidade de modelo, nem falta de talento, nem regulação. Apontam três coisas: ausência de aprendizado, ausência de integração e ausência de adaptação ao contexto. As ferramentas funcionavam na demonstração e quebravam no fluxo real de trabalho, porque não retinham memória, não incorporavam o contexto de quem usava e não melhoravam com o uso.

Guardei isso porque bate com o que eu venho ouvindo em campo.

Nos últimos meses, conversando com bancos, cooperativas, seguradoras, revendas e fundos, a pauta de IA que aparece nessas mesas é sempre a mesma: automatizar o que é repetitivo, ler documento que hoje alguém lê na mão, acelerar análise que hoje leva dias, atender melhor, decidir mais rápido. Trocando o segmento, muda o vocabulário. Não muda o plano.

E acho que todos estão certos. É isso mesmo que vai acontecer, e provavelmente rápido.

Uma dessas conversas me marcou mais que as outras. Uma gestora de vendas de uma grande revenda de insumos me contou que estão construindo o próprio CRM com IA, porque nenhuma solução de mercado atendia ao que eles queriam. O que mais me chamou atenção não foi a decisão em si — foi o detalhe de que estão fazendo isso com pouco apoio da área de TI.

Fiquei com essa cena na cabeça. Se alguém da área comercial consegue construir a ferramenta que precisa, a capacidade parou de ser escassa em algum momento que eu não vi acontecer.

Vou dizer o que eu penso disso, com o risco de soar duro: tem muita empresa gastando milhões para automatizar processo que já deveria estar automatizado há dez anos, e chamando isso de estratégia de IA. É uma dívida operacional antiga sendo paga com orçamento novo. Precisa ser paga, não estou dizendo que não. Mas fico com a sensação de que, quando todo mundo tiver pago, ninguém vá ser mais competitivo por causa disso.

Foi aí que a pergunta me pegou, e não me largou mais:

Se todo mundo vai conseguir fazer isso, o que exatamente vai fazer uma empresa se diferenciar da outra?

Não tenho uma resposta fechada para ela. Tenho um raciocínio em andamento, algumas leituras que me ajudaram a organizá-lo, e a impressão de que essa é uma conversa que a gente ainda está fazendo pouco. É isso que quero colocar aqui.

Chego a essa pergunta de um lugar específico: passo os meus dias construindo infraestrutura de risco para crédito e seguro no agro, num setor em que a gente só descobre se errou depois que a safra acabou. Talvez seja por isso que a pergunta sobre o que de fato se acumula não me saia da cabeça.

Precedente

Esse padrão já tem nome, e já tem vinte anos

Em maio de 2003, Nicholas Carr publicou na Harvard Business Review um artigo que virou briga pública: IT Doesn’t Matter. A tese dele era desconfortável na época e, na minha leitura, envelheceu bem.

Carr separa dois tipos de tecnologia. A proprietária, que fica restrita a quem a detém e por isso gera vantagem. E a que ele chama de infraestrutural — ferrovia, energia elétrica, telégrafo, e depois a própria TI. A tecnologia infraestrutural tem um ciclo previsível: enquanto está sendo construída e é escassa, ela abre oportunidade real de vantagem para quem chega primeiro. À medida que se torna disponível e barata para todos, vira insumo de commodity. Continua essencial — mais essencial do que nunca, inclusive — mas some do plano estratégico. Deixa de explicar por que uma empresa ganha da outra.

O argumento central de Carr é quase óbvio quando você o lê em voz alta: você só ganha vantagem fazendo algo que os outros não conseguem fazer.

Uma ressalva necessária, porque a versão simplificada dessa tese não se sustenta. Os modelos não são idênticos entre si e não vão ser. Custo, latência, janela de contexto, especialização por domínio, capacidade de raciocínio — isso varia, e para muitas operações varia de um jeito que importa no P&L. O que está convergindo é a capacidade geral, não a arquitetura. Escolher bem o modelo continua sendo decisão de engenharia relevante.

Mas isso é decisão de engenharia, e não o que vai separar duas empresas do mesmo setor daqui a cinco anos — ou pelo menos é assim que eu venho enxergando. Pode ser que eu esteja subestimando esse ponto, e é um dos lugares onde eu gostaria de ouvir quem trabalha mais perto da infraestrutura.

E a curva está andando mais rápido do que Carr teria previsto. A eletricidade levou décadas para se distribuir. A IA está se distribuindo em trimestres. O que era vantagem de quem chegou primeiro em 2023 já é preço de tabela em 2026. Vale a pergunta de em que ponto dessa curva cada empresa está apostando. Se a aposta for ter a capacidade, o relógio já parece estar correndo contra ela.

A confusão

O incômodo maior: será que isso é estratégia?

Michael Porter escreveu em 1996 o ensaio que continua sendo a coisa mais útil já publicada sobre o assunto: What Is Strategy?. A distinção que ele faz é entre eficácia operacional e estratégia. Eficácia operacional é fazer as mesmas atividades melhor que os concorrentes. Estratégia é fazer atividades diferentes, ou fazer as mesmas de forma diferente.

Porter observa que eficácia operacional é necessária, mas quase nunca suficiente, porque as melhores práticas se difundem rápido. Todo mundo copia todo mundo, todos se aproximam da mesma fronteira de produtividade, e o resultado é o que ele chama de convergência competitiva: empresas cada vez mais parecidas, competindo cada vez mais só por preço.

A convergência competitiva descrita por Porter: ganhos de eficácia operacional se difundem, todos se aproximam da mesma fronteira, e a diferença entre as empresas encolhe até sobrar o preço.

Quando eu olho de novo para a lista que aparece em quase toda apresentação de IA — automatizar o repetitivo, ler documento, acelerar análise, reduzir custo por atendimento — é difícil enquadrar aquilo em outro lugar que não seja eficácia operacional.

O que não tira o valor: é legítimo, é necessário, e deixar de fazer seria pior. O que eu questiono é chamar isso de estratégia de IA. Se Porter estiver certo, é um erro de categoria — e um erro caro, porque consome orçamento, atenção da diretoria e o discurso da empresa inteira em algo que o concorrente também vai ter.

Onde isso me deixa

Capacidade compartilhada é piso, não vantagem

A pergunta que eu tenho feito, inclusive para mim mesmo: se a estratégia de IA de uma empresa cabe inteira num slide que o concorrente também poderia apresentar, ela ainda é estratégia? Eu tenho dificuldade de dizer que sim. Para mim soa mais como atualização de infraestrutura — necessária, mas não diferenciadora.

Há um contra-argumento razoável aqui, e não quero passar por cima dele: mesmo que a capacidade se equalize, quem implanta primeiro colhe dois ou três anos de vantagem, e isso não é pouco. Eu concordo que não é pouco. Só não sei se dá para chamar de vantagem aquilo que tem data para acabar.

O que não resolve a pergunta que abriu este texto. Se a capacidade vira piso para todos, alguma coisa continua diferenciando uma empresa da outra. E a resposta mais comum para isso é uma que eu mesmo dava até pouco tempo atrás — e da qual venho desconfiando cada vez mais.

É o assunto da próxima parte.

Referências desta parte

01
Aditya Challapally, Chris Pease, Ramesh Raskar e Pradyumna Chari. The GenAI Divide: State of AI in Business 2025.MIT Media Lab, Project NANDA, julho de 2025
02
Nicholas G. Carr. IT Doesn’t Matter.Harvard Business Review, maio de 2003. Expandido em Does IT Matter? (Harvard Business School Press, 2004)
03
Michael E. Porter. What Is Strategy?.Harvard Business Review, novembro–dezembro de 1996, pp. 61–78

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