Estratégia & Tecnologia

Dado exclusivo não gera vantagem.O ciclo gera.

 

Venho desconfiando que o que compõe com o tempo não é a base de dados, e sim o que se faz com ela.

Onde paramos. Na primeira parte eu levantei a suspeita de que capacidade que todo mundo ganha ao mesmo tempo não chega a ser vantagem, e sim o novo piso — e que boa parte do que se chama hoje de estratégia de IA cabe melhor na definição de eficácia operacional que Porter usa. Ficou a pergunta: o que sobra?

A resposta que eu mais ouço, e que eu mesmo dava, é: dado proprietário gera vantagem. Venho achando que ela é incompleta de um jeito que muda tudo.

Conheço empresas sentadas em cima de bases de dados que ninguém mais tem e que não conseguem transformar aquilo em nada. Isso me fez desconfiar da equação. O dado é condição, não causa — ele não vira vantagem só por existir.

Quanto mais observo, mais acho que ele só vira vantagem quando entra num ciclo que se retroalimenta.

O ciclo que compõe com o tempo. Um concorrente compra dado, contrata gente boa e usa o mesmo modelo — mas não compra as voltas que você já deu.

Cada volta melhora a volta seguinte. Se eu estiver certo, é aí que mora o que se acumula de verdade.

Os insumos

O que alimenta o ciclo

Quanto mais observo, mais acho que três coisas alimentam esse ciclo — e que nenhuma delas, sozinha, dá conta.

O contexto que não está publicado em lugar nenhum. Modelo não inventa informação que ninguém escreveu; ele generaliza o que é público. O que está no seu ERP, no seu histórico de contratos, no registro que só existe em cartório, na conversa que seu time tem com o mesmo cliente há doze anos — nada disso está no treinamento de ninguém. Não é raspável. É integrado, um pedaço por vez, com trabalho chato que não vira demonstração bonita.

Uma conversa que me marcou foi com um grande produtor de grãos e algodão da Bahia. Eles estruturam operações de crédito anexando os próprios relatórios de manejo e produtividade das áreas, para mostrar que a capacidade produtiva deles está acima da média que a Conab acompanha. Não é o número público que sustenta a conversa — é o histórico que eles construíram, safra após safra, e que mais ninguém tem.

Saí de lá pensando que aquilo é exatamente o que eu venho tentando descrever, só que feito por quem está do outro lado do balcão.

A posição no fluxo onde a decisão acontece. Estar dentro do processo é diferente de estar ao lado dele. Quem está embarcado vê onde trava, o que é ignorado, qual exceção é aberta e por quê. Quem está do lado vê o relatório depois. Só quem está dentro consegue capturar a consequência no momento em que ela acontece.

O julgamento que não está em nenhum corpus. Toda operação madura carrega uma doutrina: critérios, apetite, leitura de exceção, um jeito de olhar que veio de gente que errou muito e aprendeu. Isso vive na cabeça de poucas pessoas. Codificar é trabalho artesanal e lento, e por isso mesmo defensável. Mas doutrina que não é confrontada com resultado vira opinião congelada.

Se eu tivesse que resumir em três linhas o que venho pensando:

Contexto sem ciclo é arquivo.
Posição sem ciclo é observação.
Doutrina sem ciclo é dogma.

Uma coisa que só ficou clara para mim construindo isso: o mesmo produtor aparece em canais diferentes, em safras diferentes, com histórias que não conversam entre si. Quem consegue juntar essa trajetória está vendo uma coisa que não está à venda em lugar nenhum. Foi olhando para isso que eu comecei a olhar diferente para a pergunta — o ativo talvez não seja o dado, e sim o que ele conta ao longo do tempo.

Se essa leitura fizer sentido, o ativo é o ciclo inteiro funcionando — e não qualquer uma das três peças isolada. É aqui que eu mais gostaria de ser contestado, porque é a parte do raciocínio que ainda estou testando.

Por que demora

A vantagem aparece depois do investimento, não junto com ele

Isso ajuda a entender por que tão pouca gente faz.

Brynjolfsson, Rock e Syverson descreveram esse atraso num trabalho sobre a Curva J da Produtividade. O argumento: tecnologias de propósito geral — e eles citam IA nominalmente — exigem investimentos complementares que são majoritariamente intangíveis. Redesenho de processo, invenção de novos produtos e modelos de negócio, formação de gente, construção de bases de dados próprias. É o mesmo padrão que apareceu na eletrificação das fábricas americanas, em que a produtividade levou décadas para reagir porque ninguém tinha redesenhado a planta ainda.

Esses investimentos custam caro e aparecem como despesa antes de aparecerem como resultado. Por isso a produtividade medida cai na entrada de uma tecnologia de propósito geral, e só sobe depois, quando o estoque acumulado começa a ser colhido. Daí o formato de J.

A tecnologia é o que todo mundo compra. O capital intangível complementar é o que só a sua empresa acumula.

O ciclo que descrevi acima é esse tipo de capital: não se compra, se acumula. Pode ser que eu esteja forçando a analogia, porque eles falam de um conjunto muito mais amplo de investimentos. Mas a lógica do atraso entre o custo e o retorno é a mesma.

Uma consequência

Velocidade importa — mas talvez não a que a gente costuma citar

Costuma-se dizer que a vantagem em IA vem de implantar antes dos outros. Concordo em parte, mas acho que a parte que falta é a que interessa.

Chegar mais rápido ao mesmo lugar que o concorrente vai alcançar em seis meses é a corrida pela capacidade, e ela tende a terminar empatada. O que vale, na minha leitura, é começar a acumular antes — porque o ciclo leva anos para maturar, e quem começou primeiro acumula voltas que dificilmente se compram com orçamento.

Só que existe um elo desse ciclo que, pelo que tenho visto, quase toda empresa deixa quebrado. E é quase sempre o mesmo. É o assunto da última parte.

Referências desta parte

01
Paul A. David. The Dynamo and the Computer: An Historical Perspective on the Modern Productivity Paradox.American Economic Review, vol. 80, n. 2, maio de 1990, pp. 355–361
02
Erik Brynjolfsson, Daniel Rock e Chad Syverson. The Productivity J-Curve: How Intangibles Complement General Purpose Technologies.NBER Working Paper 25148, 2018; American Economic Journal: Macroeconomics, vol. 13, n. 1, 2021, pp. 333–372

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